O filme

O filme “As luzes de Benjela”

Não me recordo exatamente quando e onde, talvez tenha sido em um filme de animação, enfim, não me lembro ao certo, mas vi uma imagem em que havia uma casa pequena, pobre, isolada de tudo e cercada apenas por um céu completamente estrelado. Ah, sim, dentro da casa havia algum tipo de luz acesa, pois dava pra ver que haviam pessoas e essa luz iluminava os furos do teto formando estrelas céu. Essa imagem gravou na minha mente e assim escrever o roteiro foi apenas uma consequência natural.

Inicialmente o filme seria chamado “A casa que fazia estrelas”, mas fui demovido da idéia por um amigo cineasta (Ricardo Movits), pois alegou, e concordei, que já desvendaria o segredo no título do filme e isso não seria bom.

Há alguns anos aprendi uma técnica com o diretor teatral Henrique Sitchin que é  chamada de “imagem disparadora” e a utilizo muito no meu processo criativo. A espinha dorsal do processo de criação foi assim e essas foram algumas das inúmeras perguntas que bombardeei àquela imagem que não saía da minha mente: Quem mora nessa casa? Uma família pobre, foi a resposta mais convincente. E porque o teto está furado? Porque na história deles há muita violência e esses buracos foram causados pela violência e também pelo desajuste familiar. Mas porque eles brigam tanto? Porque o pai da família está preso e desde então eles não mais se entendem. E porque as estrelas no céu foram formadas pela luz que vazou os buracos do teto da casa? Porque é o dia que o pai da família voltou, eles se reconciliaram e estão tão felizes que emanaram luzes ao ponto de construir estrelas no céu… Wow! Gostei! Interessante… Uma reconciliação familiar gerando estrelas em um lugar inóspito… bonito! Pode rir, mas eu tenho esse lado esquizofrênico e converso muito comigo mesmo… rsrsrs. Claro, aqui só estou descrevendo uma conversa legal. Mas no dia que alguém gravar as demais conversas verão que meu lado Smeagle briga demais com o lado Frodo… rsrsrs.

Pronto, já tinha o esboço geral do roteiro e bastava apenas agora desenvolver os personagens, as peripécias, as viradas, enfim, faltava apenas aplicar a técnica e essa seria a parte mais fácil… mas com um tremendo desafio: Como escrever poesia que dê esperança num cenário de tragédia e sem ser piegas?

Com esse desafio escrevi o que agora chama-se “As luzes de Benejla” que é um drama familiar de uma família pobre, negra, residente em uma periferia de uma pequena cidade brasileira, composta pelo casal Adamastor e Rosina, e seus filhos Benjamin (Benjela) e Luzia. Esse família que possui problemas típicos de outras em situação de exclusão precisarão discutir suas relações e achar soluções em um cenário de alto stress e logo no dia em que o pai retorna após o pai haver cumprido 10 anos de prisão. Sim, há esperança para situações dessa natureza, essa é uma tônica que procuro marcar no filme.

A esperança é um dos sentimentos mais intrigantes do ser humano. Seja fazer uma construção onde nada existe ou mesmo plantar em solo árido, o ato de perseverar – ou ter esperança – é inerente à humanidade e isso a distingue dos demais seres. Mas como ter esperança em um quadro de exclusão social, desolação e desamparo, quando tudo e todos os indicativos apontam o caos como destino? Como cristão acredito que a graça prevalece quando, por exemplo, a palavra branda aplaga o furor. O lugar comum seria fazer mais um filme de violência sobre pessoas que vivem num contexto de exclusão e meu desejo desde o início foi de não banalizar o sofrimento dessas pessoas mas de apontar uma possibilidade de solução. Senão, pensei, não teria graça… isso mesmo, sem graça não há esperança. Confesso, sou um roteirista de finais esperançosos, mesmo quando não aparentem ser. Não vejo o menor sentido em convidar alguém pra assistir a uma obra minha e fazer que ao final sinta-se pior que no início. Pra isso já chega o cotidiano, mas isso é outro papo.

Todo roteirista precisa forçosamente de alguém  que avalie sua história e tive uma grande sorte de ter por perto amigos cineastas (Juliano Lucas, Sérgio Lacerda, Johil Carvalho e Henrique Gabriel) que muito contribuíram na limpeza do roteiro. Agora só faltava resolver uma questão aparentemente simples: Há uma metáfora visual de suma importância no filme e que seria fácil de resolver se houvessem condições financeiras para contratar uma equipe de efeitos especiais. O lance é que no filme há todo um jogo de acende e apaga a luz e que denota com quem está a ação positiva dentro da perspectiva do filme que é de esperança. Por exemplo, Benjamin chega irritado em casa, bate a porta e a luz da cozinha por um mal contato se apaga. Rosina se levanta e acende uma vela. Adamastor entra em casa, a luz da sala está acesa mas como Luzia tem um segredo (e não deveria tê-lo diante de seu pai), ela apaga a luz da sala sob o pretexto de fazer uma surpresa pra mãe.  À partir daí, não vou contar tudo, mas à medida que os conflitos vão surgindo dentro de casa e a família vai sendo encurralada,  vão confessando uns aos outros suas mazelas e esses atos é que permitem que as estrelas nasçam no céu. Acender e apagar luzes é fácil, mas você já pensou alguma vez em filmar uma estrela nascendo? Só eu mesmo… E agora estava com esse pepino nas mãos.

Thiago Mendes, o diretor de fotografia me perguntava: E como você pretende filmar uma estrela nascendo? A resposta era óbvia mas não de simples implantação: um bolinha branca vai chegando até virar estrela no céu… Testamos inúmeras luzes, todas davam um alo muito grande e a estrela nasce pequena, não sabia? Rsrsrsrs. Comecei a chamar a imagem disparadora de “imagem desesperadora”. Tentamos um laser, mas ele tinha uma bolinha pequena, característica demais e as cores eram verde ou vermelha. Até que certo dia o Thiago apareceu na minha casa com uma solução: Um prisma! Isso, produzimos com canos de PVC um ele (em 90 graus), sendo que numa ponta colocaríamos um fecho de luz forte e na outra ponta um furinho suficiente pra desenhar a luz na parede. Tudo muito lindo, certo, até que chegou a hora de usar. Enfim, deu e não deu certo… mas a história é longa e não daria pra contar tudo aqui. Foi uma aventura e foi a única maneira que conseguimos de fazer uma luz pequena que desse a sensação de ser uma estrela … rsrsrsr.

Ao longo da pré-produção eu pensei em vários nomes para o filme porque havia desistido do nome inicial. Depois de muito tentar cheguei no título “As luzes de Benjela”. Me pareceu intrigante e o Benjela como apelido pejorativo para Benjamin também era interessante porque aumentava o drama do filho com relação ao pai. Esse dilema é que depois da prisão do Adamastor, e enquanto ainda era criança, desde então Benjamin nutriu uma mágoa e como que se desvalorizando prefere ser chamado mais pelo apelido que pelo próprio nome. A relação entre os membros da família não é das melhores. Rosina, a mãe, é cristã, mas até nas conversas mais simples desconfia da integridade do filho projetando e temendo que seu destino seja idêntico ao do marido. Luzia, a filha, é ingênua, esperançosa, ansiosa pela volta do pai para casa mas está prestes a se tornar “mãe solteira” e não sabe quem é o pai do seu filho. Por essa razão ela teme ser rejeitada pelo próprio pai que desconhece a gravidez da filha. Como se vê, todos os membros possuem motivos de sobra pra não encontrar um suporte seguro no outro, porque cada um vive sua própria tragédia. Até que Adamastor volta pra casa e à medida que vão se reconciliando ou tomam decisões em prol do outro luzes surgem sem que compreendam sua origem. Pelo contexto de violência que vivem, julgam que são tiros de alguém e que há alguém sobre o telhado quando na verdade são “estrelas nascendo”, frutos de suas reconciliação. No início do filme, depois de uma discussão com a mãe, Benjamin fala com a irmã que “a energia da casa era tão ruim que nem estrelas tinham no céu”… E tudo muda à partir do momento em que eles se reconciliam e tratam suas diferenças.

O elenco

Interessante como os atores subverteram a ordem do que eu tinha em mente para os personagens. Teste mesmo eu só fiz com o Eduardo Tunner que fez o Benjela. No texto original o personagem seria mais jovem. Mas quando dei um pequeno texto pro Eduardo ler, vi na aparência dele uma certa ingenuidade e que cabia bem ao personagem. Percebi também nele uma facilidade muito grande para cenas de alta dramaticidade e isso seria preciso no filme. A Cristiane Sobral (Rosina) me foi indicada por um amigo, os trabalhos dela por si a recomendavam e na prática ela é muito melhor do que podia imaginar. O Gilson Cezzar (Adamastor) foi o caso mais típico dessa subversão, pois estava procurando um ator mais velho quando fui assistir a uma peça em que ele atuava como um mendigo. Inicialmente o senso profissional dele me cativou, pois cheguei mais cedo que o normal, entrei no teatro e fiquei quieto observando tudo e percebi que enquanto a maioria dos atores conversavam descontraidamente o Gilson fazia aquecimento vocal, corporal e se concentrava sozinho nas falas do seu personagem. Até então aquilo era apenas um ritual normal para qualquer ator, mas quando ele entrou em cena a história mudou e apostei nele. Como a diferença de idade dele e o Eduardo não é grande tive o receio de perder força no drama entre o filho e um pai que não acompanhou a juventude do filho, mas isso os dois tiraram de letra. Por fim, A Raísa (Luzia) e Marcos Aurélio (Benjela criança) foram apostas, pois não tinham experiência em cinema e se saíram muito bem. Frank, Hemerson, Arnaldo e Edney Marinho já tinham atuado em outros filmes e sabia que dariam conta do recado e deram.

Sobre as filmagens?

Fazer cinema independente é uma atividade de alto risco porque a atividade cinematográfica é cara e o planejamento necessário para que tudo dê certo implica em muitos custos e diversos profissionais envolvidos. No nosso caso, como toda trama se passa dentro de uma casa simples e não havia recursos pra construir uma casa cinematográfica, a alternativa foi alugar a casa de uma família simples e pagando pelas diárias de uso uma vez que eles residiam na mesma. Por causa disso, a falta de espaço para movimentação da câmera e da equipe técnica foi um enorme desafio, pois no menor descuido microfone vazava na imagem, ruídos apareciam, enfim, loucura total. Por outro lado, quando se tem uma equipe comprometida – e eu tive esse privilégio – quando tudo acaba fica uma tremenda satisfação de ver tantos amigos engajados no trabalho mas também um peso monstro sobre os ombros. Enquanto num processo normal você contrata, paga, cada um vai pro seu canto e o filme é só seu, nesse esquema de “guerrilha” a responsabilidade do diretor aumenta, pois há a inerente obrigatoriedade de fazer um filme “melhor ainda” como uma forma de agradecer e reconhecer tanto esforço empreendido.

A abordagem

Eu não queria fazer um filme convencional de uma família negra, pobre e em situação de risco. Isso seria o óbvio e o que todo mundo espera assistir quando esse tema é abordado. O senso comum me empurrava pra apenas explorar o lado violento da realidade de famílias similares à do filme, mas desde que escrevi o roteiro julgava que mostra sobretudo o lado trágico seria jogar mais lenha na fogueira e em nada contribuiria para mudar a realidade. Claro, não sou ingênuo de considerar que um simples filme vai mudar uma situação tão complexa, mas ao menos ele aponta um caminho possível, até óbvio mas raramente visto em filmes: A reconciliação e consequente esperança muda a realidade.

Por isso, os diálogos muitas vezes são metafóricos, o final onírico e não estranharei se críticos reclamarem da forma como os personagens se expressam. É possível fazer poesia pra sublimar a tragédia. Há quem veja uma situação ruim e diga “não tem jeito”, mas esse não sou eu. Tá ruim? Tá, mas pode mudar!

Como escolhi o menino que interpreta Benjela criança?

A ideia não era escolher um ator e queria uma criança que tivesse a mesma expressão alheia, desligada, que o Edurdo Tunner trouxe ao personagem. O Frank me apresentou várias crianças da região e quando estávamos indo à casa de outro garoto vi o Marcos Aurélio meio de relance entrando numa casa. Entrevistamos os outros meninos mas a expressão dele não me saia da cabeça. Com alguma dificuldade conseguimos descobrir onde era a casa dele, falamos com sua mãe e ela permitiu sua participação.

Porque usar uma música cantada em inglês em um filme brasileiro?

Há duas músicas que usamos como base para desenvolvimento da trilha do filme. A primeira é “Kumbaya”, um negro espiritual que era cantado pelos negros africanos quando viviam escravizados nos Estados Unidos. A outra música é a clássica “Messias”, de George Frideric Handel. Ambas possuem conotação religiosa e retratam bem não apenas o anseio da Rosina em função da sua crença, mas de toda família que ansiava por algum tipo de redenção que mudasse suas trágicas vidas. Matheus Felipe, meu filho, foi quem compôs toda a trilha sonora e conduzimos os arranjos para dar a sensação de uma procissão de escravos que vão aparentemente para uma execução quando, na verdade, estão sendo libertos… mesmo que por meio de dor e choro.

Com relação ao uso de músicas estrangeiras, objetivei por meio de um tema comum em várias culturas universalizar a mensagem, pois esse problema não é só vivido por famílias brasileiras e sim por muitas em várias partes do mundo.

O que me motivou a produzir um filme sobre uma família negra?

O roteiro eu escrevi bem antes desse episódio. Mas num dia, conversando com a Cristiane Sobral, que é uma reconhecida atriz e com prêmios e atuações em outros lugares do mundo, ela comentou uma coisa que me marcou muito. Volta e meia, disse-me, há pessoas que me ligam e dizem “Cris, em tal trabalho estão precisando de uma artista negra e lembrei-me de você…”. Puxa, que coisa triste! A Cristhiane é uma atriz brilhante não porque tem um tom de pele e sim porque tem talento e como tantos outros exerce bem o seu trabalho.

Você acha que estou exagerando? Faça você mesmo um teste e pegue agora uma revista, aleatoriamente, e observe quantos modelos negros existem em propagandas de produtos? Faça um ranking, coisa do tipo 1 branco (1×0). Apareceu um negro (1×1)… Veja as novelas e filmes, tanto do Brasil quanto fora e observe quantos negros possuem papel de destaque nesses filmes? Lamento afirmar que tristemente observaremos que no inconsciente coletivo da humanidade ainda vemos os negros como escravos ou algo parecido com “raça inferior”.

É lamentável, mas real, que ainda hoje muitos negros sejam reconhecidos apenas porque possuem uma tez diferente. É muito triste! Não vejo o semelhante em função da sua cor e por isso não tive predileções em escrever o roteiro com essa temática. Resumindo e finalizando, a família do filme poderia hispana, nordestinos, enfim, famílias em situação de risco à despeito de suas origens.

Onde aconteceram e qual a duração das filmagens?

A Isabella Reis, produtora do filme, tentou por diversos meios e maneiras conseguir um lugar que fosse inóspito e ao mesmo tempo habitável, mas sempre esbarrava com uma questão: Se a família é pobre, naturalmente não tem uma casa grande. Procuramos casas em Brasília, Anápolis, mas por fim fizemos tudo em Santo Antônio do Descoberto, que é uma pequena cidade de Goiás e fica há uns 40 km do centro de Brasília.

Tinha conhecido o ator Frank Joseph durante um curso para formatação de projetos e desde então desenvolvemos uma boa amizade. Juntamente com Hemerson Colt e Arnaldo Santos são atores apaixonados por cinema e foram cruciais para a realização do filme. Tanto que o personagem Frank é interpretado pelo próprio Frank Joseph e fiz questão de permanecer com seu nome no personagem como que fazendo uma agradecimento. Nessa minha busca pedi ajuda ao Frank, achando que ele morava no Gama, e ele me sugeriu ir ver uma casa que ele tinha e que estava vazia. A casa era perfeita ao que queria pelo lado de fora, mas pequena por dentro e a alternativa foi alugar uma segunda casa, também dele, sendo que nessa havia uma família morando mas aceitaram sublocar alguns dias para as filmagens. Desta forma, a casa é, na verdade, composta por duas distintas. Sendo uma para as locações de fora e outra pras cenas de dentro.

Momentos  marcantes nas gravações

Houve momentos não necessariamente marcantes, mas engraçados. Eu tinha concebido um plano em que o Benjela olha pra dentro de casa por um “buraco de bala” no vidro da janela da cozinha, vê a mãe e a irmã de joelhos enquanto o pai está em pé com a mão no bolso e também julga mal o pai porque acha que ele está pra fazer alguma maldade. Ou seja, tinha que fazer o buraco de bala no vidro da cozinha… mas como fazer um buraco de bala sem dar um tiro no vidro? Falei com muitos vidraceiros e a resposta era de que podia estilhaçar tudo. O ideal era tiro mesmo! O Hemerson, que é policial, logo disse “deixa quieto que eu meto bala nisso”… Nem pensar, a casa não era isolada de outras, a família tinha crianças dentro de casa, etc. Estava pensando em como resolver essa questão quando o Hemerson me ligou pelo celular “estou aqui, quer mais ou menos em que altura?”. Disse como queria mas que ainda não tinha uma solução quando ele falou: Vou resolver, quer ouvi? Gelei. Pimba, desliguei o celular e fiquei com o coração querendo sair pela boca. Comecei a imaginar alguém levando um tiro, enfim, em seguida ele me ligou sorrindo e dizendo que estava tudo resolvido. De fato, ficou do jeito que eu pensava e a cena é bem legal.

O outro lance foi com o Marcos Aurélio, que é o Benjela criança no filme. Acertamos o dia hora e todos os detalhes com a mãe dele e quando chegamos lá … cadê o menino? Marcos estava no mundo,  brincando e nem aí pra minha filmagem. A mãe dele saiu agoniada procurando em tudo que é canto. De repente, passado uns 20 minutos (que pareciam 2 anos), ao longe vejo um menino vindo emburrado, com os braços cruzados, e sua mãe falando poucas e boas. O menino passou sem sequer olhar pra mim, entrou em casa junto com a mãe e pouco depois saiu uma garota com a boa notícia “ele não quer gravar mais não!”. Como assim? Ficou louco? Bem, eu que comecei a ficar louco. Pedi licença, entrei na casa e o garoto começou a mexer com meus nervos. A irmãzinha dizia “ele foi pros fundos”… eu ia pra lá e ele corria pra frente. Eu ia pra frente da casa e ele se escondia no quarto. Passado o sentimento infanticida fiquei quieto até que desconfiado ele chegou e disse “quero mais não…”. Conversa daqui, dali, com muito papo e dizendo que seria rápido, levamos o menino pro set de gravação e ele totalmente emburrado. Santo Frank teve uma brilhante ideia que funciona com criança “vai rolar sorvete” e aí ele desarmou. Aos poucos fui trabalhando pra tirar apenas as expressões que queria dele e no final ele até já estava contente de olhar no monitor as cenas que havia gravado. Vai fazer cinema independente…

Mas houve também momentos belos e outros que acho bem significativo. Estávamos vendo a locação quando o Timm, o diretor de arte, viu no poste da frente da casa uma mão de criança pintada no poste e sugeriu que pintássemos outra mão abaixo ou acima pra denotar que o pai tinha o hábito de pintar a mão do filho à medida que crescia. Achei simbólico e evoluímos a ideia pra um papel pintado onde haveriam mais mãos mas que esse “quadro” estaria  jogado num “quarto da bagunça” junto com brinquedos velhos. Embora rápida, achei essa cena muito forte essa idéia da descontinuidade de um hábito tão singelo por causa de uma tragédia familiar .

Uma cena que me toca é quando a família foge do banheiro e para um dos quartos da casa ecaminhando de joelhos numa alusão ao que um dia fizeram enquanto brincavam, mas agora, pra poderem retomar ao rumo certo, o que foi um dia foi prazer agora tem desconforto.

Como o filme retrata o brasil e o brasileiro?

O filme não tem essa preocupação de retratar famílias brasileiras como se fosse um documentário. Na verdade, a estética do filme aproxima-se mais dos filmes de realidade fantástica que dos dramas tradicionais quando abordam a temática do pobre e do excluído, pois embora tendo como pano de fundo uma família pobre, o tema reconciliação é inerente às famílias em qualquer lugar do mundo.

Onde pretendo passar o filme?

O caminho natural de um curta metragem é a participação em festivais e pretendo inscrevê-lo em tantos quantos forem possíveis, tanto no país quanto fora. Por isso, tanto o filme quanto todos os processos de comunicação (site, pressbook, etc.) estão traduzidos em inglês e espanhol.

O filme terá uma sequência?

Desde o início eu concebi esse projeto pra ser um longa, mas optei pelo formato de curta metragem (até 25 minutos) por pura falta de recursos financeiros. Mas confesso que concluo o filme com o gosto de que deveria ter feito um longa, pois poderia melhor trabalhar as dimensões psicológicas de cada personagem. No futuro, quem sabe…