O Filme

Estou produzindo um documentário sobre a vida do ator Gê Martu e desde o início do processo combinamos que ele me falaria sobre toda e qualquer situação em que houvesse exposição pública dele (entrevistas, peças, ensaios, filmagens, etc.) para que de alguma maneira eu pudesse fazer o registro.

Pois bem, certo dia o Gê me ligou dizendo que havia sido convidado pra fazer um curta de alunas de comunicação social da Universidade de Brasília: a expectativa era de que fosse um processo bem simples, pois era apenas um trabalho de primeiro semestre. Como no processo de elaboração de um documentário não há informação inútil, preferi ir ver in loco do que se tratava. Chegando lá, duas coisas me chamaram a atenção: A primeira, puxa, o Gê realmente é um cara diferenciado. Foi rejuvenescedor ver um ator como ele, com um sem número de atuações em peças e mais de 50 filmes realizados, se entregar sem qualquer restrição à direção de meninas totalmente inexperientes e em uma produção sem os mínimos recursos (entenda-se mínimos mesmo!). Por outro lado, que legal ver garotas tão jovens produzindo um filme com um tema tão complexo que são as doenças degenerativas da memória. E assim fiquei ali, dividido entre filmar o Gê em cena e silenciosamente me divertir por lembrar do meu início ao ver as meninas atabalhoadas, improvisando e resolvendo cenas. Também percebi como algumas abordagens delas tinham semelhança com coisas que já havia concebido para um roteiro que estou escrevendo que se trata da mesma temática. Pedi à Thaís Rosa (a roteirista) para ler o roteiro, e ela me deu uma cópia, me explicando que havia se inspirado na história “Days with my father de Phillip Toledano*”.

Confesso que escrevo, mas detesto ler roteiros. É frio, técnico, não tem emoções… Arg! Que coisa chata! Só leio os meus porque as sensações já estão em mim ou de outros quando preciso fazer alguma pesquisa para compreender e aprender sobre outros estilos, ou para fazer algum projeto específico. No mais, preferencialmente prefiro estudar os roteiros a partir das obras prontas. Parece coisa de louco, mas é isso mesmo: Vejo o filme e extraio dele o roteiro. Mas não foi assim com o roteiro da Thaís. O li, e a história não saía da minha mente, mas sempre vinham outras cenas e com outras dimensões para os personagens. Por isso, num rompante, numa sentada, reescrevi o roteiro dela e mandei-lhe um e-mail dizendo resumidamente o seguinte:
“O que acabei por concluir não é comum e compreenderei se você me julgar mal, mas o seu texto desde o início mexeu comigo, pois o tema realmente me incomoda. Você não me deu autorização, eu não pedi, mas há coisas que explodem em mim e se você não permitir que eu prossiga vou compreender. Obviamente você vai notar que mudei um pouco o sentido da sua história, o título, inseri mais um personagem, coloquei alguns dos seus textos dentro das normas de escrita de roteiros e suprimi outros porque são da fase seguinte…
O que quero com isso? Duas coisas: que você me autorize a prosseguir em filmá-lo e, claro, você seria a co-autora.”.

Nesse e-mail eu também extendi o convite para a Isabella Veloso, Vanessa Santos, Heloísa Abreu e Patrícia Nascimento, que juntamente com a Thaís haviam feito o curta Lugar Vazio (nome original do roteiro de Thaís).

Pra meu alívio ela me respondeu dizendo-se grata, que aceitavam participar do processo (apenas a Patrícia não pode aceitar o convite).

Fato interessante foi que não obstante eu ter mudado o curso da história ao ponto dela pouco se parecer com o descrito no blog do Phillip Tolledano, a Thaís fez questão de pedir que de alguma maneira deixássemos claro a fonte primária do roteiro. Não apenas aceitei como admirei essa preocupação ética por parte dela. A partir daí, começamos a trocar muitos e-mails pra ir refinando o que pretendia, sem desvirtuar muito a história original concebida por ela.

Interessante esse negócio de escrever roteiro. Estávamos já bem avançados no desenvolvimento quando ela chegou com uma opinião da mãe: “A história está atemporal e não há nada que denote o porque o personagem morre no final”. Perfeito! Um detalhe tolo mas que fazia toda diferença. Claro! O Alzheimer é uma doença degenerativa… mas como mostrar essa evolução em um filme de até 20 minutos?

Dentro do processo de pesquisa, para caracterizar o personagem, uma imagem que veio-me à mente foi de que seria irônico um relojoeiro sofrer de Alzheimer. Logo um relojoeiro, que está acostumado a “cuidar do tempo” passar a esquecer dele? Assim caracterizamos o pai como sendo um relojoeiro (ou um colecionador) e por isso é que na casa dele há inúmeros relógios… e quase todos “parados”. Confesso que caracterizar o personagem dessa maneira foi um pouco de catarse para mim, pois meu pai embora não tenha falecido de Alzheimer era relojoeiro e cresci em meio a todo tipo de relógio. Precisava de muitos relógios para caracterizar os ambientes e quando se faz um filme sem recursos os amigos é que sofrem com os muitos pedidos. Por isso não poderia deixar de agradecer à atriz Elair Witczak por haver cedido suas fotos de família e ao casal Marco e André Neves, Dulcinéia Lyra dos Santos Abreu e Hemerson Colt por me emprestarem seus muitos e preciosos relógios que embelezaram e deram sentido ao filme. Vocês não imaginam como foi difícil devolvê-los.

Roteiro escrito, equipe mais ou menos montada (já contando com os amigos de sempre: Cláudio Moraes, Thiago Mendes, Henrique Gabriel, Fernando Cavalcante, Fernando Henrique e Ana Pieroni), era a hora de escolher o elenco pra filmar e com um enorme desafio: tempo pra ensaio e de produção. Os maiores desafios foram que eu já havia marcado uma longa viagem para fevereiro, o Gê só poderia ensaiar no final de janeiro e ainda precisávamos achar um ator que estivesse à altura do Gê e do personagem em si. Num encontro casual conheci o Maurício Witczak e logo vi que ele tinha um jeito melancólico, era calvo e isso batia bem com os dois personagens. Contudo, ele tinha quase o dobro da altura do Gê e a saída foi alterar o roteiro, permitindo que o pai brincasse com o filho por causa desse crescimento avantajado. “Hormônio de frango”, é o que Eduardo diz ao filho quando desafiado em sua força.

Organizamos de ler o roteiro no final de janeiro mas só pudemos fazer isso uma única vez porque o Gê ficou doente. Por causa disso alterei minha viagem para março. O Gê melhorou, mas quando chegou a hora de filma, ele ficou novamente doente e nessas horas é que vemos a vantagem de trabalhar com atores bons. Não houve ensaios e tudo se resolveu no set de filmagem. Como todo filme de “guerrilha”, a coisa saiu, mas não sem os naturais atropelos e improvisos, mas nada que não possa ser suplantado quando se trabalha com amigos dispostos a fazer o melhor.

Uma coisa que disse à Thaís quando nos conhecemos é que quase sempre produzimos filmes pensando em prêmios e reconhecimento, mas esse não é o meu combustível. Graças ao coração generoso dela pude adaptar o seu roteiro, e o filme Carta da Esperança é uma carta que escrevi para reconhecer o quão valoroso é o trabalho das pessoas que cuidam dos seus parentes em idade avançada. Se o filme ganhará prêmios e exibições em festivais eu não sei e sinceramente não estou preocupado com isso. Contudo, se Deus permitir que algum dia eu encontre alguém cujo filme o encorajou em sua caminhada diária no cuidado dos seus parentes mais necessitados… Puxa, me sentirei como um vencedor do Oscar.

* Days with my father foi um blog criado pelo fotógrafo inglês Phillip Toledano, onde postou fotos do seu pai que sofria de uma doença degenerativa da memória.