O filme

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A CULPA É DO GÓÓGLE

Conheci o Gê em 1983, quando juntos atuamos na peça Chapéu de sebo, sob a direção do Murilo Eckardt, e logo percebi que estava convivendo com um talento raro.

Gê, como simplesmente os chamávamos, tinha um raro controle da voz, talento esse moldado nas participações em radionovelas e nos mais variados tipos de peças para as quais já havia emprestado seu talento. Claro, o Murilo era o diretor, e fazia isso muito bem. Entretanto, instintivamente, ao final de cada espetáculo recorríamos a ele para saber se tínhamos ido bem em cena. Foi assim que descobri seu jeito altruísta.

Hoje, passado tanto tempo e ouvido tantos testemunhos similares, constatei que Gê Martu é naturalmente altruísta. Se ele não puder te elogiar, dificilmente o criticará. Nossos caminhos tomaram rumos distintos e perdi por completo o contato. Quer dizer, deixamos de nos encontrar rotineiramente e de atuarmos juntos, mas o Gê estava sempre presente no meu rádio, jornais e TV por meio das muitas propagandas e matérias. Recordo-me, depois de assistir a uma propaganda na TV, quando comentei com um amigo “eu o conheço. Atuei numa peça com ele”, e meu amigo ficou com aquela expressão de quem não acreditava, tal a relevância cultural que à época ele tinha pra Brasília.

O tempo seguiu seu curso e no início dos anos 2000, sem que tenhamos marcado, nos encontramos em um shopping de Brasília. Gê estava fascinado com os avanços da informática (risos). Disse-me surpreso que havia pesquisado seu nome em um “programa” – foi assim que o chamou – cujo nome era “Góógle” (e foi assim mesmo que pronunciou). Parecia um menino. Estava radiante com a quantidade de sites e notícias que apontavam para a sua trajetória. Hilário. Ri muito. Só o Gê mesmo. Ele nunca se viu do tamanho que é. Nos despedimos e só em 2007 nos reencontramos e ele me convidou pra assistir a peça “ARS – As Mil Folhas Peladas Dos Poemas”, da sua filha, Luciana Martuchelli, no Teatro Galpão.

O “Góógle” atestava que o artista Gê Martu era uma figura conhecida. Expontaneamente meu amigo reconhecia sua notoriedade e eu estava em busca de um tema pra fazer um curta metragem. Sem muita pretensão o perguntei sobre o que achava e, surpreso, topou, agradeceu e ficou feliz com a idéia… ambos não sabíamos da aventura que estavámos nos impondo. Depois explico. Como tudo aconteceu rápido, tipo um dia antes do espetáculo, não deu tempo de providenciar equipe de filmagem e eu nem sabia também se minha filmadora estava funcionando adequadamente, visto que há apenas alguns dias a havia recebido depois de um complexo conserto. Mas não podia perder a oportunidade e fui filmar e assim surgiu a primeira filmagem do que apenas agora, passados onze anos, virou O mestre da cena, meu segundo longametragem.

NINGUÉM MORRE NESSE MEIO TEMPO… FECHADO?

No Brasil, há por parte de alguns cineastas um pensamento tacanho (pra ser educado) de que documentaristas tem uma “estatura e relevância menor” do que os que produzem filmes de ficção. Talvez influenciados por documentários mal feitos, que comumente são repletos de gente sentada falando diretamente pra câmera (o famigerado talking head), o fato é que quem pensa assim não compreende as implicações e necessidades de produção para a realização de um documentário. Já fiz inúmeros filmes, em ambos os formatos, e posso assegurar que por vezes fazer um documentário é muito mais complexo e desafiador. Mas isso é papo pra outro momento.

Como a ideia inicial era apenas fazer um curta, um filme com duração máxima de 15 minutos, achei que seria tranquilo, pois, pensei, bastará estruturar uma história a partir do acervo de imagens que o Gê deve possuir… ledo engano. Que acervo? Ele não tinha praticamente nada. Quer dizer, tinha um bom apanhado de recortes de jornais, mas mesmo assim, eram publicações recentes, do seu tempo já em Brasília. E sua história no RJ? Haviam apenas alguns folhetos e nada de publicações em jornais. E mais nada? Não! Pintou desespero e logo disse a ele “Gê, você tem o fundamental que é uma bela e rica história, mas isso por si não segura um filme”. Como se vê, enquanto num filme de ficção partimos de uma realidade concebida (o roteiro) e dedicamos esforços pra materializar o que se preconcebeu, em um documentário biográfico temos que construir uma realidade a partir do que será pesquisado e isso não apenas dá muito trabalho, como também nos direciona pra caminhos que nem imaginávamos que existia.

UM ESTRANHO ACORDO

E foi assim que fizemos um acordo que nenhum humano pode fazer: “Gê, disse pra ele, primeiramente, não tenho patrocínio pra fazer esse filme, não sei quanto tempo levará pra obter todas as informações audiovisuais necessárias e nem se as conseguirei”, e ele me respondeu “sem problemas, o meu tempo é o seu tempo”. Complementei, “Ah, mais uma coisa, ninguém morre nesse meio  tempo… fechado?”. Combinamos que assim seria, mas por via das dúvidas preferi pedir a quem controla a vida e Deus nos abençoou.

MUITO PRA FAZER UM CURTA E POUCO PRA FAZER UM LONGA

Precisava produzir conteúdo e isso implicava não apenas em pesquisar o passado, como também produzir imagens dele no presente. Fiz uma primeira filmagem com ele narrando sua trajetória e o dilema só aumentava “a história do Gê é rica e complexa para um curta, mas as informações audiovisuais são poucas para um longa”. Ai, ai…

Não tinha jeito, não sabia o quanto conseguiria produzir, mas tinha que prosseguir. Detesto começar um projeto e não o concluir. Luciana Martuchelli e Marcos Pacheco muito me ajudaram. A Luciana criou um grupo no facebook para que as pessoas me enviassem informações (fotos e vídeos), o Marcos Pacheco se incumbiu de falar com atores que conviveram com ele e sempre que possível o acompanhava em peças e filmagens. Preciso confessar, por mais que essa não seja uma regra, ficava aflito por constatar que lentamente as coisas iam se encaixando à medida que ele também envelhecia. Fazer um filme com um prazo tão longo de produção tem suas consequências. Ao longo do processo, um dos HD’s onde armazenava parte do conteúdo pifou e perdi umas duas peças inteiras e muita coisa que havia pesquisado. Imagine o desespero!

Combinamos que ele me envolveria em sua agenda e que me convidaria para as coisas mais tolas que fosse fazer. Confesso que disse isso sem compreender como agiria. Se há um tapete vermelho na frente dessa criatura incrível, logo ele trata de indicar para que seus amigos nele caminhem (mesmo que ele fique de fora). Eu contava que ele me convidaria para as peças e filmagens, mas muitas vezes me convidava para que eu filmasse a dona fulana de tal ou o padeiro que uma vez fez um bolo e ambos são importantes pra ele, etc. Não tem jeito, isso é do Gê. Pra ele, as pessoas não são importantes pelos títulos que ostentam.

PARADOXOS DO MEIO ARTÍSTICO

O Gê trabalhou com muita gente, e de muitos sequer cobrou o mínimo necessário para locomoção, e foi triste constatar que existem artistas que são o oposto do generoso Geraldo Martuchelli. Houve, acreditem, quem tinha material utilizável no filme, mas não quis fornecer. Prefiro crer que era desconfiança daquilo que eu poderia produzir a partir de suas obras. Estranhei, me chateei, mas respeitei. Houve também outros que sequer se dignaram a responder aos nossos (meu e do Gê) e-mail, mensagens, sinais de fumaça, torpedos, etc. Graças a Deus, esses foram minoria, contados nos dedos das mãos. Na verdade, o que mais me constrangeu foi o oposto, muitos colegas de profissão e amigos pediram claramente, “eu quero falar no filme do Gê e dizer o quanto ele é genial, um cara legal, um baita ator, etc. etc.”. Puxa, o que dizer? Como diretor eu só poderia ser honesto e responder “se eu julgar que sua história será relevante para o filme, por favor, precisarei de seu depoimento. Do contrário, espero que compreenda e que isso não atrapalhe nossa amizade e muito menos com ele, mas não o entrevistarei”. Complicado, não? Houve também várias filmagens de momentos especiais (ele no médico que ele tanto gosta), a atuação dele como diretor teatral, como dublador e locutor, etc. Que eram situações que eu julgava como certas de constarem no filme, mas que acabaram de ficar de fora quando da montagem. Houve também personagens que foram importantes para a carreira dele, como foi o caso da Clorys Daly, e que não pude entrevistar, porque quando estaria no Rio de Janeiro, local onde mora, no mesmo período ela faria uma cirurgia.

A PESQUISA

É comum que os artistas mudem seus nomes ao longo de suas trajetórias, só que até eu atentar pra isso pouca informação do passado conseguia. Hoje sei que ele já foi conhecido como Geraldo Martinelli, G. Martuchelli, Martu Chelli, apenas Martu, dentre outros pseudônimos, e isso me deixava louco porque nos jornais do Rio de Janeiro não haviam registros de um ator com nome de Gê Martu… rsrsrs… ai, João Inácio, que tonto que você foi! Rsrsrs. Virei um dos maiores fuçadores do “santo site da Biblioteca Nacional”. Desandei a pesquisar. Sumia da vida do Gê, mas sempre ligava e dizia “calma, estou trabalhando” ao  que ele respondia, “meu tempo é o seu tempo”. O segundo acordo era desnecessário lembrar, pois estávamos nos falando.

MEU DEUS, QUE SUSTO!

O projeto teve uma pausa forçada quando Gê quebrou o fêmur e ficou internado um bom tempo. Houve uma força tarefa de amigos para acompanhá-lo nessa peregrinação. A Luciana Martuchelli se esmerava para cobrir todas as necessidades do seu pai, a comoção dos amigos era emocionanete e tudo aquilo seria cinematograficamente emocionante, mas depois de ficar horas a fio fiquei meditando sobre o assunto, e  preferi deixar que a situação permanecesse viva apenas na mente daqueles que conviveram com ele nesses dias.

O MESTRE DA CENA

Durante o processo do filme fiquei em dúvida quanto ao título e inicialmente o chamei de “Gê dos palcos de Brasília”, mas a Luciana Martuchelli sabiamente me fez lembrar que o trabalho dele vai além dos palcos de Brasília. Foi nesse momento que me lembrei de uma matéria escrita pelo jornalista Paulo Lannes para a Revista Veja, cuja matéria chamava-se, O mestre da cena. Genial! É isso mesmo! Ninguém é tão longevo e profícuo numa atividade sem tornar-se mestre nela. Falei com o Paulo e ele graciosamente não se opôs com a minha iniciativa.

Depois de dez anos, quando me dei por satisfeito com a quantidade de informação levantada, entrei em crise… e agora, como contar tudo isso? Fiquei um bom tempo olhando tudo sem saber qual a melhor forma de narrar essa bela história até que me deparei com o óbvio… havia uma máquina de escrever no meio do caminho. Gê aprendeu a datilografar quando adolescente e, pasmem, frequentemente havia uma máquina antiga de datilografar nos seus filmes e peças. Então, pra que brigar com o quê sem força se deixava notar? Assumi esse aspecto e, no fundo, o filme do Gê é ele contando sua própria história como se a estivesse escrevendo para nós, seus filhotes e filhotas.

Resumir 77 anos em 73 minutos não foi fácil, mas foi prazeroso. Gê Martu atuou em quase 100 peças, cinquenta e tantos filmes, um sem número de comerciais e outras inúmeras expressões audiovisuais.

Quando pedi a Deus que pudesse concluir o projeto tinha em mente que essa homenagem seria legal se fosse em vida, para que todos notassem como Brasília foi feliz por ter recebido e adotado um artista tão genial e amoroso.

Sou o diretor e roteirista do filme? Sem dúvida, e isso muito me honra. Mas prefiro me ver como um alter ego. Traduzi em palavras e imagens apenas aquilo que todos que tiveram o privilégio de conviver com ele fariam se tivessem essa oportunidade. No final do filme (desculpem-me pelo spoiler) o Gê fala uma coisa bem legal “Sabe, filhões e filhotas, representei centenas de personagens, mas não tenho dúvida de afirmar que o melhor palco onde eu, Geraldo Martuchelli, atuei, foi no coração dos meus amigos”. É verdade. Sou prova viva disto. Vivas para Gê Martu – O mestre da cena!